A grama do vizinho

Há tempos eu estava querendo escrever um post sobre jóias, mas tem tanta gente que gosta de julgar os outros que só criei coragem ontem. Não é ridículo como há pessoas que nos fazem sentir envergonhados por coisas das quais na verdade não deveríamos nos envergonhar?

Digo isso porque semana passada recebi dois e-mails malcriados (talvez no fim se trate da mesma pessoa usando contas diferentes) me criticando por causa do post em que conto que estava triste. Em um dos e-mails, a pessoa teve a "delicadeza" de me dizer que eu devia parar de reclamar de "barriga cheia" e a outra usou de ironia ao me chamar de "pobre menina rica". Considerei perda de tempo responder os e-mails e deixei a coisa por isso mesmo. Afinal, quem não vai com a minha cara que simplesmente não leia meu blog. Nem me escreva.

Depois fiquei matutando aqui com meus botões... Por que será que para certas pessoas a grama do vizinho parece sempre mais verde? Por que o ser humano tem essa mania horrorosa de usar sua visão pessoal das coisas para julgar o comportamento e a vida dos outros? Pior de tudo, por que há pessoas que parecem se incomodar tanto com o que o outro tem ou, pior, com aquilo que elas julgam que o outro tem?

Tempos atrás li um texto maravilhoso que falava sobre a tal "inveja do rico", essa praga que parece afetar tantas pessoas. Repararam que no Brasil todo mundo que tem dinheiro é visto como corrupto, ladrão ou alguém que puxou o tapete de outra pessoa para subir na vida? Sempre esse julgamento ridículo, como se ter dinheiro fosse um pecado. Coisa mais chata!

Há pouco estava lendo sobre a cirurgia a que o vice-presidente brasileiro José Alencar teve de se submeter ontem para retirada de tumores no intestino e fiquei horrorizada com os comentários insensíveis de alguns internautas. É como se apenas por ser político e rico o cara merecesse sofrer mais. 77 anos, um câncer agressivo e 14 cirurgias. O que acontece com o coração de certas pessoas?

Quando entrei na Petrobras, o comentário generalizado era de que eu devia ganhar super bem, afinal, o motorista me buscava na porta de casa e quem trabalha na Petrobras "não pode mesmo ganhar mal". Era um tal de gente tentando me vender Natura, Avon e todo tipo de quinquilharia que vocês não têm ideia. Se eu dizia que não tinha dinheiro para comprar, duvidavam: "Mas você trabalha na Petrobras"! Tá bom, como se ricos usassem Avon e morassem na periferia da cidade mais violenta do Espírito Santo!

Fiquei noiva nessa mesma época e aí que neguim decidiu que eu tinha ficado rica mesmo. Ninguém sabia o que ele fazia, nem quanto ganhava, mas do nada decidiram que se o noivo era gringo, então tinha de ser rico. A coisa piorou quando comecei a organizar a cerimônia do nosso casamento. Na época, contratamos duas cerimonialistas para me ajudar porque eu não tinha tempo para ver as coisas do casamento, mas para quem olhava de fora aquilo era puro esnobismo. Nunca foi. Na verdade, quebrei foi altos paus com elas.

Se eu dizia que estava duranga por causa dos gastos com o casamento e cansada de tanto fazer horas-extras para pagar meu vestido de noiva, choviam brincadeiras sem graça: "Ah, mas seu noivo tem dinheiro", "Pede pro seu noivo pagar". Muitos achavam que eu só estava fazendo doce. Fora a ousadia dos que começaram a me pedir coisas. Pediam absolutamente tudo na maior cara-de-pau! E eu o tempo todo lembrando às pessoas que eu continuava vivendo do meu salário e morando na periferia. Que idiota que eu era dando tantas explicações pra esse povo cretino!

Então mudei para os EUA e os julgamentos continuaram. Até meu pintor já se mostrou inconveniente ao me perguntar três vezes quanto pagamos por esta casa - prova de que descaramento não conhece nacionalidade. Recentemente ele me saiu com esta: "Seu pai é um homem de negócios, não é"? Caramba, como eu ri! Respondi a verdade, que eu pertencia à classe operária, e ele ficou me olhando meio desconfiado. Que intrometido! Já tive de dar várias cortadas no sujeito, mas parece que o desconfiômetro dele está avariado.

Quando recebi aqueles e-mails idiotas confesso que fiquei meio baqueada, porque é verdade que ninguém gosta de abrir sua caixa de e-mail e ler m... Passei a achar graça no momento em que me dei conta de que para perder tanto tempo analisando e julgando a vida de alguém que elas nem sequer conhecem é necessário que ambas sejam ou muito à toas ou muito doentes. Or both.

Hilária mesma é essa conclusão a que alguns parecem ter chegado de que eu sou rica. Eu gostaria imensamente de saber em que conta mágica depositaram os tais milhões que me transformaram nessa pessoa tão rica que uns e outros decidiram que eu me tornei, mas esqueceram de me avisar.

Acontece ou já aconteceu de alguém julgar que vocês são ricas somente por serem casadas com estrangeiros e viverem nos EUA?

9 Comments:

Fernanda Amarante July 10, 2009  

ALL THE TIME.

É impressionante. Você fala que tá noiva de um americano e tem criatura que dá aquela risadinha e pensa "ahá, vai ter o maior vidão lá hein?"... Ok, a moeda é R$1 = US$2, então se você tem um salário normal nos EUA, multiplique por dois e todo mundo já acha que é a maior fortuna. Esquecem que salário vem de trabalho e que qualquer mortal tem que trabalhar pra receber.

Fora a distância. Tem criatura que acha que é o negócio da China (ou melhor, dos EUA, hahaha) mudar pros EUA para casar. E que a gente tá fazendo isso porque somos mega-espertas! Que preguiça! Então significa que somos um bando de coração-gelado que não vai sentir saudade da família e dos amigos né? Aham...

Eu tive que me manifestar... Eu tou na mesma, olhando minha cerimônia de casamento (dá um trabalhasso) tanto aqui quanto nos EUA. E fica esse povo aqui, principalmente quando vamos olhar preço de salão, buffet, dando a bendita risadinha e falando pro noivo americano pagar tudo! GET A LIFE!!!

Hehehe...
Aposto que você entende! :)

Beijão!
Fe

Lina-a princesa July 10, 2009  
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Eliane Pechim July 10, 2009  

Se entendo! De fato sempre rola essa idéia de que estamos dando o golpe do Green Card ou o clássico golpe do baú. Sobre os salários, o que essa gente esquece é que aqui se ganha mais mas também se gasta mais porque o custo de vida é altíssimo. Além disso, os impostos comem boa parte dos salários. Isso ninguém pensa. E se você explica, não acreditam. O que mais me incomoda é esse despeito. Qual o problema em se ter dinheiro? Nunca tive despeito de quem tem grana, por isso tenho dificuldade em entender quem nutre esse tipo de sentimento mesquinho pelos outros. E como você bem lembrou, pobres ou endinheirados têm de ralar (e muito) para pagar suas contas. Tudo é fruto de trabalho. Ah, que saco!

Mais uma vez, fiquei feliz por saber que você já tem a data da entrevista. Estarei aqui com os dedos cruzados torcendo por você. Beijão

Patrícia July 10, 2009  

O típico comentário sobre uma brasileira que se casou com um americano e veio morar nos Estados Unidos: "Agora Fulana se deu bem!"
Pra mim, se dar bem é ter encontrado uma pessoa que eu amo e vice-versa e construírmos a nossa vida juntos, mas pra quem está de fora, se dar bem é receber em dólares.
Bom fim de semana pra vocês dois!

Camila July 10, 2009  

Acho que uma coisa que o ser humano sabe fazer muito bem e pre-julgar. Nunca vi igual. Aqui, acredite se quiser, as pessoas me olham como se eu tivesse me aproveitando do meu marido, como se ele tivesse "me achado" no Brasil, tipo mail order bride. Me irrita. Quando casamos no Brasil, eu nao sei o que os gringos estavam esperando, mas quando viram o lugar do casamento, a decoracao, ficaram boquiabertos, como se estivessem esperando que a gente fosse casar numa roca, de terra batida, com todo mundo desarrumado. Pessimo.

Outra coisa que me incomoda no Brasil e a mania das pessoas chamarem outras de patricinha so porque a familia tem dinheiro, ou estudou numa faculdade particular, por exemplo. Acho isso um saco.

Ai, esse assunto rende. Mas esse povo nao tem nada pra fazer, e devem ser muito infelizes. Realmente nao vale a pena voce perder tempo respondendo.

Bia Mendonça July 10, 2009  

As pessoas adoram julgar! As vezes parece q ficam só esperando a hora pra soltar o veneno. Mesmo que dificil, pq quando a gente se sente injustiçada quer explicar e deixar tudo em pratos limpos, é preciso ignorar esse povo e lembrar q eles devem viver vidinhas tão patêticas e sem graça, q precisam se "alimentar" da vida dos outros!

bjs

Fernanda July 13, 2009  

Melhor coisa foi vc nao ter perdido tempo respondendo a um e-mail com dizeres tao mesquinhos como esses. Infelizmente existe muita inveja nesse mundo!
Beijos!

Adriana July 13, 2009  

Oi Eliane,
O melhor concelho que tenho a te dar eh realmente ignorar coisas desse tipo. depois de 5 anos de Blog, jah ouvi (li!) de tudo nessa vida. Jah me chateei bastante, jah rolaram altas baixarias no meu blog, jah fui julgada e sentenciada varias vezes, mas agora aprendi que oque entra por um ouvido, sai pelo outro.
Cada um sabe a dor e a delicia de ser quem somos, e gracas a deus nao eh nosso endereco que classifica quem somos.
E sabe que aprendi a me divertir com essas polemicas todas? Alem disso, bloquear IP adresses eh uma dadiva... jah consegui desmascarar algumas pessoas assim!
Bjs
Dri Miller
http://drieverywhere.eplixo.net

Eliane Pechim July 23, 2009  

O que eu penso é um misto de tudo que vocês escreveram aqui. A gente está junto por amor, mas tem sempre aqueles que mesmo sabendo disso vão sempre preferir acreditar que casei por dinheiro ou pra dar o golpe do Green Card.

Camila, como você disse, no Brasil ninguém pode ter nada que já começam os julgamentos. Odeio essa inveja de rico. Sobre o seu casamento, lembrei a tia do meu marido. Na noite do ensaio, março, verão, ela reclamando dos insetos e que no dia do casamento ia usar repelente (casei na Ilha do Boi, tem muito mato lá). Curioso é que ela é de Michigan e aqui no verão não dá pra colocar a cara no deck depois que escurece senão os mosquitos te picam toda. É de rir, né? Detalhe: ela mora no Brasil há 40 anos. Ótima pessoa, mas pra que aquele comentário infeliz? Beijo

Adriana, eu li o post que rendeu discussões sobre o comentário de uma leitora sua. É desagradável, ainda não cheguei no mesmo nível de abstração seu. Ainda me incomoda, ainda fico tentando me explicar. É ridículo, mas certos comentários ainda me afetam. Espero com o tempo me divertir dessa gentinha tosca como você demonstra já ter aprendido a fazer. Está certíssima!

Beijos a todas!

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Eliane Pechim
Canhota, atéia, resiliente, liberal-democrata, antibelicista, flamenguista, amante dos livros e das artes, dos dias frios e chuvosos, do cheiro da tangerina e do mato, de churrasco e fruta azeda, de longas caminhadas e música alta, de balões e flores amarelas, de filmes indie e filosofia, de decoração e casa arrumada, de gente inteligente e honesta, tolerante e leal, de gente que me faz bem.
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