Sentem que lá vem post grande, mas prestem atenção, por favor, porque este será provavelmente o último post em muito tempo.
Já há algum tempo eu vinha me sentindo mais e mais desconfortável com o blog. Recentemente cheguei ao ponto de passar a reler 10 vezes o que escrevia antes de publicar com medo de postar algo e ser mal interpretada, julgada, comparada, criticada. Não adiantou nada. Percebi que por mais cuidado que eu tome, há pessoas aí fora que vão concluir coisas horríveis a meu respeito e não há nada que eu possa fazer a respeito disso.
Já recebi e-mails malcriados de pessoas me criticando por causa de tudo, mas até agora tinha dado de ombros porque, afinal, tratavam-se de pessoas que eu nem conhecia e cuja opinião a meu respeito não me importava seriamente.
Até eu escrever aquele
post sobre a Ikea. Percebi pelos comentários e por e-mails recebidos que algumas pessoas entenderam errado o que escrevi. Fiquei extremamente chateada com alguns comentários porque o que pretendia ser somente um post com impressões sobre uma loja de móveis da qual não gostei, gerou comentários sarcásticos de gente discutindo qual estilo é mais chique, clássico ou contemporâneo. Meu post jamais foi sobre isso.
Jamais pretendi esnobar ou humilhar pessoas que mobiliam a casa com móveis da Ikea. Jamais disse ou sequer insinuei que na minha casa só tem móveis assinados por designers famosos. Jamais chamei a Ikea de loja pra pobres. Jamais. Jamais. Quem leu meu post com isenção e tolerância entendeu que eu simplesmente não gostei da loja e que embora garimpando eu ache possível encontrar peças interessantes lá, eu ainda preferiria pesquisar mais e procurar outra opção. Porque há.
Foram muitos comentários e eu sempre fui muito boa para ler nas entrelinhas e pescar o que as pessoas estão me dizendo por trás de sorrisos e frases simpáticas. No final, era tanto sarcasmo que sim, eu já estava respondendo com rispidez, porque não aguentava mais ter de repetir que sim, eu acredito ser possível montar um ambiente bonito e elegante com móveis baratos. Que sim, cada um tem o direito de preferir um estilo a outro, amar ou odiar a Ikea e sim, o que importa é estar feliz e respeitar seu gosto pessoal. Não fui falsa. Eu realmente acredito nisso.
Passou. Relevei. Meu desconforto voltou à tona quando recebi de uma amiga um e-mail dizendo coisas pesadíssimas sobre eu só me importar com imagem e coisas, de nunca falar de sentimentos no meu blog e que o post da Ikea não foi o único em que eu demonstrei ser esnobe e só pensar em dinheiro. Essa pessoa tem móveis da Ikea em casa, mostrou fotos do quarto pra mim (que achei super bonito) e por causa do meu post se sentiu pessoalmente ofendida e atingida pelas minhas palavras. Disse que depois disso não tinha mais coragem de me receber em casa porque ia se sentir envergonhada já que eu tinha criticado a qualidade e a beleza dos móveis da Ikea.
Tudo errado. Tudo completamente distorcido, equivocado. Tentei explicar, mas as acusações continuaram. Ela continua acreditando que meu post teve a intenção primordial de atingi-la, de humilhá-la, com o plus de querer também humilhar todas as outras pessoas que gostam e compram na Ikea. Segundo ela, o modo como escrevi foi agressivo, foi muito crítico, foi muito deep.
Sim, foi. Mas essa é a Eliane Pechim. Sou conhecida entre os amigos e a família por ser uma pessoa visceral, apaixonada, que escreve, fala e defende suas opiniões com paixão, que diz tanto o que pensa que às vezes é punida pela vida e pelos outros por isso. Ser visceral é o mesmo que ser esnobe? Escrever de forma verdadeira, aberta e apaixonada é o mesmo que querer humilhar os outros? Dizer que não gostei da Ikea e explicar por que é o mesmo que dizer que odeio lojas baratas? Não gostar dos móveis da Ikea significa considerar feia e cheap a casa de todo mundo que montou ambientes com móveis da loja?
O que devo deduzir disso tudo então? Que aquele meu
post sobre cupons de desconto foi uma demonstração de esnobismo só porque falei que não usava os de supermercado porque eles geralmente são para descontos em produtos de marcas ruins? Aí a pessoa vai esquecer que o post foi justamente para dizer que eu amo cupons de desconto. Tenho de dizer que amo todos? É difícil. Quando uma pessoa forma uma opinião sobre a gente, tudo que a gente disser e escrever ela vai interpretar de maneira negativa e tendenciosa.
Essa amiga disse que não falo sobre pessoas nem sentimentos no meu blog. Mas que pessoas? Eu não tenho mais ninguém aqui sobre quem falar a não ser do meu marido (menos) e de mim mesma (muito). Somos as únicas pessoas aqui, não conheço mais ninguém. Vou falar dos amigos que não tenho? Da vizinha que nem olha na minha cara? Do meu dentista que vejo uma vez por mês? Do embalador do Kroger? Também sempre tomei o cuidado para não expor demais as pessoas da minha vida, porque meu blog é sobre mim, não sobre os outros.
A respeito dos meus sentimentos... Que engraçado, eu achei que falasse disso o tempo todo. Curioso é que no
post em que comentei que estava triste, veio gente
me xingar e dizer que eu estava reclamando de barriga cheia e bancando a coitadinha. Perguntei a esta pessoa: se eu contasse no meu blog todas as desgraças do meu passado você me acharia mais humilde? Ou será que os julgadores de plantão iam dizer que minha intenção era bancar a falsa humilde? Contar dos meus problemas de saúde iria gerar empatia ou antipatia das pessoas? Será que uns e outros não viriam dizer que minha tentativa era de me fazer de coitadinha para ganhar leitores e seguidores?
Essa é uma pessoa de quem eu gosto enormemente, talvez por isso eu esteja tão magoada, tão triste, tão passada. Nem dormi a noite passada, só chorando e pensando nisso. Em como alguém de quem eu gosto tanto, que sabe quase tudo da minha vida, todas as coisas podres, tristes, ruins que eu nunca conto aqui no blog, pode ter chegado a tal conclusão a meu respeito? Como é possível ela ter ficado tão ofendida com um post sobre a Ikea só porque ela tem móveis da loja? Minha opinião foi generalizada, eu comentei no mesmo post o que vi de positivo lá. Mas não basta gostar de uma coisa, preciso gostar da loja inteira. Só que essa amiga ficou ofendida mesmo assim.
Quando criei o blog, deletei todas as fotos que tinha colocado do meu casamento logo após a cerimônia porque não queria que pensassem que eu queria mostrar a festa. Quando contei da
reforma da minha cozinha não mostrei a cozinha inteira para evitar a mesma coisa. Releiam o post, dei o nome de todas as lojas onde comprei os itens mencionados. Home Depot é loja de rico? Comprei minha pia lá. Se eu tivesse dito então que não gosto da Home Depot as pessoas que como eu compram lá iam me considerar esnobe? Não dá pra entender essa lógica.
Não conto mais o que compro, o que ganho do meu marido pela mesma razão. O blog perdeu a essência, perdeu a razão de ser. Não me sinto mais livre, não me sinto mais à vontade. Tenho sempre essa impressão de que aí fora há pessoas julgadoras prontas para condenar e sentenciar porque elas já têm uma opinião formada a meu respeito.
Nunca contei aqui que nasci na roça, que meus pais nem terminaram a escola, que quando eu tinha 18 anos e entrei na faculdade meu pai ficou desempregado e mudamos pra uma casa sem reboco, o chão de cimento. Era geladíssima no inverno. Eu tinha de pegar carona na BR-101 pra ir pra faculdade porque não tinha a grana do passe. Naquele Natal de 1993, em vez do peru, comemos pastel de banana que eu comprei com o ticket-refeição do estágio. E foi bom. Porque lembrei de gente que nem pastel tinha pra comer naquela mesma data. Mudei pra SP em 1999, fui roubada e fiquei sem um tostão. Sobrevivi pela amizade e cuidados de amigos que fiz numa cidade onde eu não conhecia ninguém.
Saí de casa um dia pra ir pro trabalho (primeiro dia) no Morumbi, desci no ponto errado e me perdi. Só tinha o dinheiro da volta, não podia pegar outro ônibus. Caminhei por umas 3 horas. Parei num ponto de táxi e pedi direções. O taxista me levou até a porta da empresa. Falei que não tinha dinheiro e ele disse que eu não precisava pagar nada. Sem dinheiro, comendo biscoito de água e sal o dia todo, conheci uma italiana que me deixou morar 30 dias na casa dela até eu receber meu primeiro salário e ser capaz de pagá-la. Moramos 2 anos juntas e desenvolvemos uma amizade que perdura até hoje. Eu tinha 23 anos. Ela mais de 70. Nunca esqueci o que aquele taxista e minha amiga italiana fizeram por mim. Foi de graça, por pura e genuína solidariedade. E por alguém que eles nem conheciam.
Em 2001, tive poliomiosite, uma doença auto-imune que provoca fraqueza generalizada nos músculos e impede a pessoa de andar, ficar em pé e segurar objetos. Fiquei internada, parei de andar, fiz uma biópsia, fisioterapia, usei muleta. Minha vida, pro bem e pro mal, mudou completamente a partir dessa doença. Na época, eu tinha um excelente emprego, estava apaixonada, morava num lugar de que eu gostava. A doença levou o namorado, que terminou comigo por e-mail porque os pais não me aceitavam por eu não ser judia e ele não ter colhões. Fiquei deprimida, tentei me matar (nada a ver com o namorado sem colhões), iniciei tratamento com psiquiatra. Foi quando me diagnosticaram com Transtorno Bipolar.
Minha vida virou um inferno. Entrava e saía de hospitais e clínicas psiquiátricas, os altos e baixos me levaram a me envolver com gente da pior categoria e nunca houve um tempo em que eu cheguei mais perto da morte do que naquele período em SP. Não parava em nenhum emprego. Tomava os remédios, mas quando estabilizava parava e voltava a ter recaídas. Perdi dinheiro, perdi saúde, perdi minha sanidade mental, perdi amigos, um potencial namorado se assustou quando contei que era bipolar e disse que não podia ficar comigo porque queria ter filhos "saudáveis". Cheguei a conclusão de que eu não era saudável, então não podia ter filhos.
Após 3 tentativas de suicídio e 3 internações em clínicias psiquiátricas, não tive escolha senão retornar para Vitória, onde vive minha família e as únicas pessoas que poderiam realmente cuidar de mim. Porque eu estava no fundo do poço, como só alguém que é bipolar ou convive com um bipolar pode compreender como é. Mas as recaídas continuaram e as coisas só não ficaram piores porque minha família me apoiou incondicionalmente. As automutilações, os pensamentos suicidas e o comportamento autodestrutivo ainda estavam lá, mas tive a felicidade de encontrar uma psiquiatra maravilhosa que foi quem literamente salvou a minha vida.
Entrei num período de estabilidade que não conhecia há anos. Voltei a trabalhar, passei a me cuidar direitinho, a autoestima voltou, mas nunca mais fui a mesma pessoa. Tornei-me uma pessoa isolada, defensiva, desconfiada, super fechada. Comecei a acreditar que homem nenhum nunca ia me aceitar. Morria de medo de as pessoas, principalmente no trabalho, descobrirem meu passado. Comecei a viver numa bolha. Foi aí que meu apego a minha mãe se intensificou a um ponto doentio. Até hoje é assim. Ela não dormia pra cuidar de mim porque eu não podia ficar sozinha um segundo que tentava fugir ou ia pro banheiro me cortar. Se não me cortava, arrancava o cabelo. Meu pai, com seu salário de topógrafo, fez das tripas coração e bancou muitas sessões minhas com a psiquiatra, plus Lítios, Risperidonas, Zyprexas, Lexotans, exames de sangue quando eu estava incapacitada de trabalhar.
A vergonha era enorme, a culpa também. Demorou muito tempo pra eu deixar de sentir culpa por causa do sofrimento que, sem querer, infligi a meus pais. Não fiquei doente por escolha minha, era o que eu tinha de repetir a mim mesma dia e noite. O pavor das internações continuava. Na terceira e última tentativa de suicídio meu plano de saúde rejeitou a internação em hospital particular. Me mandaram pra um hospital psiquiátrico público. Inferno dos infernos. Meio grogue, no dia da transferência, lembro a psiquiatra desse hospital dizendo que não tinha vaga e a enfermeira do outro hospital falando que não podiam me levar de volta. A médica então pediu para "juntarem 5 cadeiras e me deitarem lá".
E foi nessas cadeiras, no frio do inverno paulista, que passei minha primeira noite. As outras três semanas de internação passei numa cela (sim, era um quarto com grades) com outras cinco mulheres que tinham de depressão pós-parto a esquizofrenia. Ficávamos trancadas, não nos davam permissão de falar com nossos familiares pelo telefone. O chuveiro queimou, o enfermeiro não quis consertar. Tomávamos banho de água fria. Era julho. Minha melhor amiga namorava um parente do Paulo Maluf e foi ele que conseguiu me tirar daquele lugar. Em 3 semanas de internação o psiquiatra só apareceu pra avaliar a gente no meu último dia lá.
Fernanda, lembra que te perguntei como eram os hospitais psiquiátricos aqui nos EUA? Foi por prevenção. Sempre, desde pequena, fui diferente, problemática, depressiva. Mas só com 26 anos e muitas recaídas e perdas depois é que um diagnóstico correto do meu problema foi feito. E então pude me tratar e colocar minha vida nos eixos. Minha vida hoje não é nada parecida com a daqueles tempos.
Em 2007, conheci meu marido, num desses maravilhosos acasos da vida. Não tive dúvida de que ele era o homem da minha vida. Ele quase surtou quando contei que era bipolar e eu achei que tudo estaria perdido ali. No entanto, é dele que vem meu maior apoio hoje, que aprendeu do pior jeito como é conviver com alguém como eu. Depois de tudo que me aconteceu, parecia inacreditável que eu ainda conseguia me apaixonar e fazer com que alguém se apaixonasse por mim e quisesse casar comigo apesar do que eu tinha. Meu sogro, que é médico, me aceitou incondicionalmente. Como não me apaixonar por essas pessoas?
Vou esclarecer para não restar dúvida. Eu sou mais pobre do que a maioria de vocês que lê meu blog. Não tive pais que foram pra universidade e puderam pagar intercâmbio pra mim. Aprendi inglês no muque, sozinha, porque não podia bancar uma escola. Estudei muito porque essa é a única saída para quem nasceu pobre. Roubar e dar o golpe no baú nem sequer foram possibilidades cogitadas por mim em minha trajetória de vida. Nasci na roça, em casa, porque o lugar era tão longe e ermo que não deu tempo de minha mãe ser levada ao hospital. Cresci na periferia, rodeada pelo tráfico de drogas em ascensão mas cercada de gente boa e de caráter. Não conheci a Disney quando era criança, viajei de avião quando já era adulta, só saí do Brasil depois que conheci meu marido. Férias de infância eram na casa da avó materna, na roça, comendo goiaba no pé, andando de cavalo e correndo atrás das galinhas. E era bom. Sempre foi bom.
Se é para satisfazer a sede de sangue de alguns e o julgamento de outros tantos, vamos aos esclarecimentos. Meu marido vem de uma família privilegiada, cujo avô italiano deixou um patrimônio que foi honrado e multiplicado por quase todos os filhos. Ele teve coisas e oportunidades que eu jamais tive na minha vida. Praticamente nasceu dentro de um avião, estudou nas melhores escolas, aprendeu vários idiomas, teve contato com as mais diversas culturas e pessoas. Apesar disso, meu sogro mora num apartamento pequeno, sem luxos, nós vivemos do salário de engenheiro do meu marido e como qualquer um de vocês, temos um orçamento e precisamos nos manter nele. Se em algum momento me senti inferior a ele só por termos backgrounds diferentes? Jamais!
Dinheiro, na verdade, foi uma das coisas que mais gerou conflito em meu relacionamento desde o início, desde a escolha do estilo de cerimônia de casamento. Eu queria algo pequeno e intimista, ele queria algo grande. Brigamos, pensei em romper, fiquei desesperada porque eu nunca quis nada daquilo. Foi uma decisão que trouxe problemas para mim no meu trabalho, que exigia uma dedicação que nos preparativos para aquele tipo de cerimônia eu não podia dar. As cerimonialistas não entendiam minha cara de bunda quando saíamos pra ver as coisas. Por que as pessoas determinaram que todo mundo simplesmente tem de querer e almejar as mesmas coisas que elas querem e almejam? Foi lindo, mas não era o que eu queria.
Foi nessa época que comecei a dar explicações demais, exatamente o que estou fazendo agora. De certa forma, eu me sentia culpada. As pessoas me faziam sentir culpada. Decidiram que eu tinha ficado rica e começaram a fazer exigências. Só iam ao casamento (foi numa ilha) se eu pagasse transporte pra elas. A marca da cerveja e do vinho tinha de ser tal e tal. O tipo de música tinha de ser esse e aquele. "Só vou se meu namorado também for convidado". Não pedi presentes, pedi fraldas geriátricas para o asilo de velhos. Cabe nos dedos de uma mão o número de pessoas que deram as fraldas. Isso num total de 80 convidados. Meu marido e eu compramos mais pacotes e levei pessoalmente ao asilo. Tenho certeza de que se eu tivesse colocado minha lista na loja de bugingangas mais cara e exclusiva de Vitória ninguém teria tido a cara-de-pau de negar presentes. Como era doação para idosos, pra que se importar, não é verdade?
As cerimonialistas faziam de tudo pra lamber a bunda dos convidados gringos do meu marido, mas nunca demonstraram a mesma dedicação quanto aos meus. Parentada toda pobre, claro, desimportantes para elas. Pedi um cardápio diferenciado pros meus pais, que não comiam as coisas que seriam servidas aos outros convidados. Elas não gostaram porque disseram que não ia pegar bem servir algo diferente para eles. Insisti, eram meus pais. Elas por fim sugeriram que após a cerimônia religiosa a comida "diferenciada" fosse servida a meus pais em uma suíte (casei num hotel), sem ninguém ver, significando que meus pais teriam de comer escondidos num quartinho, como se eu tivesse vergonha deles. Nunca contei isso pros meus pais. Era capaz da minha mãe nem ter ido ao casamento. Como não se ofender com uma coisa dessas? Quase virei a mesa na cara delas, só me segurei porque uma amiga estava junto comigo.
Nesse ponto todo mundo dizia que eu ia mudar quando viesse pra cá, que ia ficar diferente agora que tinha casado com marido rico. Meu marido não é rico, mas as pessoas tiram as conclusões delas e às vezes não importa o que você diga. Deixei pra lá. Mas sempre me sentindo desconfortável e meio que me desculpando por fazer festa cara, por usar vestido caro, por ter comprado jóia cara. O que ninguém prestou atenção foi quando contei que paguei tudo isso com meu salário da Petrobras. Claro, mais fácil acreditar que tudo foi bancado pelo marido-"rico"-otário-do-qual-eu-estava-me-aproveitando.
Mudei pra cá e só comprei outra casa porque eu queria iniciar nossa vida de casados numa casa que nós dois tivéssemos comprado juntos. A outra casa é dele. Todos os outros imóveis são dele. E por mais que ele diga que é tudo de nós dois, eu não consigo ver assim, porque sou defensiva em relação a esse tema dinheiro e porque sei que alguns amigos dele comentaram que eu devia estar casando pra dar o golpe do baú e do Green Card. A família dele não. Eles foram decentes comigo o tempo todo. Sempre souberam de onde vim e o que eu tinha e não tinha. Jamais senti vergonha de apresentar meu sogro a meus pais ou de levá-lo pra visitar minha casa na periferia. Jamais! Se não me aceitassem, teria mandado todos pra puta que pariu.
Graças a meu marido eu hoje tenho mais coisas do que jamais sonhei ter na vida. Sou grata por tudo isso. O que não faz de mim necessariamente uma pessoa que está nadando em dinheiro. Repito, vivemos do dinheiro que ele faz com o trabalho dele, não com herança de sogra e bens de sogro. Meu sogro vive na Argentina, meu marido administra tudo daqui e eu não me meto. Não é meu. Não penso que é meu. Não vou nunca achar que é meu. Gosto de ter meus pés no chão e jamais esqueci de onde vim. Quem está na minha vida desde sempre sabe disso. Os outros, só julgam.
E olhem que ironia, quem mudou foi quem ficou no Brasil e me julgou. Todo esse tempo, quantos "amigos" do Brasil telefonam ou me mandam email? A maioria só se interessa por mim até o ponto em que acreditam que podem tirar algo de mim. Os amigos de verdade, poucos, esses permaneceram, mas esses jamais me julgaram. Continuo economizando os centavos, continuo frugal em meus gastos, continuo preocupada com o futuro e definitivamente pretendo retomar minha carreira em 2010. Na verdade, continuo vivendo como se amanhã me fosse faltar o dinheiro da passagem da escola. Melhor assim, não perdi meu foco.
Nunca, jamais quem veio na minha casa se sentiu desconfortável, foi destratado ou encontrou algo aqui que pudesse intimidar ou humilhar quem tem menos. Não tem caviar aqui em casa. Comentei aqui que gosto de etiqueta. Isso faz de mim uma pessoa esnobe? Por que eu não posso ser apenas uma pessoa que gosta de etiqueta??? Uso meus negocinhos que trouxe do Brasil, minhas frescurinhas compradas em lojas baratas, meus panos de prato bordados com imenso carinho por uma amiga querida da Petrobras. Em que minha vida ou minha casa é diferente da de vocês? Minha casa é grande, mas eu nunca me referi aqui a uma mansão. Meu carro foi comprado zero mas é popular e custou barato. Eu escolhi. Se sou tão metida assim, por que não exigi do meu marido um Jaguar? Por que ao invés disso tenho um Elanctra da Hyundai? Será que essa é uma pessoa que só se importa com bens materiais?
A tv de plasma que tenho na minha sala não deve ser maior do que a de inúmeras outras pessoas de classe média nos EUA. Esse é o tipo de coisa que todo mundo tem aqui, não só os endinheirados. A classe média americana tem confortos que a gente não tem no Brasil. Grandes merdas tudo isso! Há cômodos vazios nesta casa porque não podemos bancar a reforma de todos eles ao mesmo tempo. Meu marido, que sempre foi péssimo em trabalhos manuais, aprendeu a pintar paredes e trocar luminárias pra gente economizar com mão-de-obra. Assim, de pouco a pouco, como qualquer outra família americana ou brasileira de classe média, estamos terminando nossa casa. Não há previsão para finalizar o porão e o paisagismo vai ter de ficar pro ano que vem. Não sobrou dinheiro para esses projetos grandes este ano. Se eu fosse ricaça eu teria de esperar? E não me importo de ter de esperar.
Não estou tentando me fazer de mais pobre do que sou. Apenas mostrar que todos nós, sejam os que têm mais ou menos dinheiro, temos em alguma medida alguma limitação financeira. Bato perna e faço pesquisa de preço como qualquer um de vocês. Minha família (meu marido e eu) está sujeita aos efeitos dessa crise econômica como qualquer outra família americana. Nos últimos dois anos, a Ford, empresa onde trabalha meu marido, demitiu levas e levas de empregados. Acham que ele não ficou com medo de ficar desempregado? Eu nunca tive. Quando ele me perguntou a razão eu falei que já fui pobre, então pobreza não me assusta porque eu já a conheço. Se amanhã as coisas apertarem (têm apertado pra muita gente hoje, podem apertar pra mim amanhã), vou fritar hamburguer no Burguer King sem pudor nenhum. E ele vai aceitar o primeiro emprego que surgir, tenho certeza disso.
A coisa que mais o magoa é quando os amigos vêm dizer que para alguém como ele perder o emprego não é tão grave porque o papai rico pode segurar as pontas. Tem algo mais ofensivo do que isso? Cara, ninguém aqui vive de dinheiro de sogro não. E se vivesse, ninguém além de nós teria nada a ver com isso. Quando compramos algo legal ele me pergunta por que eu nunca pareço impressionada. Minha resposta sempre foi única: porque "coisas" não me impressionam. É por isso que em um ano nos EUA eu ainda não fiquei deslumbrada com absolutamente nada que comprei, ganhei ou vi aqui (em termos materiais).
Mentira, chorei quando vi
quadros do Turner e do Degas num museu em Washington. Chorei quando
vi neve pela primeira vez. Ri como criança quando descobri que podia cozinhar sem seguir nenhuma receita e
criar meus próprios pratos. Ou quando vi a cara de felicidade do meu marido quando
comprei uma tabela de basquete de aniversário de casamento pra ele. Ainda me emociono com os bilhetinhos românticos que ele deixa no meu laptop de manhã, os bichinhos de pelúcia que me dá e que estão guardados no quarto que um dia será do nosso filho, o jeito como me olha quando estou deprimida e não sabe como me ajudar.
Nenhum gesto dele foi maior ou mais significativo para mim do que quando ainda namorávamos, eu lá no Brasil e ele comprou dois ingressos de uma cambista para ir sozinho a um show do Morrissey (ex-The Smiths) aqui em Ann Arbor, um músico que ele nem sequer conhecia e nem gostou depois que conheceu. Foi ao show só porque sabia que eu era fã. Guardo até hoje um dos ingressos e a camiseta do show. São meus presentes mais valiosos. Quanto custou isso?!
Nunca tinha contado aqui no blog sobre meu passado de dificuldades, sobre minha bipolaridade justamente para evitar o efeito "coitadinha" e outros julgamentos. Mas depois de ser acusada de não escrever sobre meus sentimentos nem sobre "pessoas" aqui, o que me restava? Ela disse que só escrevo sobre superficialidades. Que opção eu tinha? Contar minhas desgraças para ganhar a empatia dos outros? O que me torna mais especial dos que os outros pelo fato de eu ter sido pobre e ser bipolar? Ok, é só como sou. Outras pessoas enfrentam outros dramas, outras dores, problemas de outra natureza. Por que contar coisas tristes então e escancarar as desgraças da minha vida me tornaria mais humana e um ser humano de qualidade superior?
Um blog sobre culinária também não seria um blog de superficialidades? Um blog sobre produtos para casa ou para crianças não seriam igualmente superficiais? É verdade, minha vida não é muito interessante. Um ano aqui nos EUA e eu ainda estou tentando driblar a depressão, a agressividade, os altos e baixos a que minha condição de bipolar me impõe. Já revelei aqui muitos medos, já contei das minhas tristezas. Mas nunca as mais profundas e garantir a mim mesma alguma reserva e privacidade não faz de mim uma pessoa superficial nem rasa. Só faz de mim uma pessoa que se resguarda e tem medo. E vejam só como eu tinha razão. Tenho mesmo motivos para ter medo.
Eu queria iniciar um blog só sobre literatura e arte. Minhas maiores paixões na vida. Mas se eu comentasse que gosto do James Joyce e do Kafka uns e outros iam dizer que meu blog era pra mostrar superioridade intelectual e chamar quem lê Dan Brown de burro. Vejam que ironia. Os julgadores apontam seus ditos erros, mas também não te dão outra escolha. E qualquer uma que se escolha, o julgamento será o mesmo.
Meu blog me levou a pessoas interessantíssimas e das quais aprendi a gostar mesmo sem conhecê-las pessoalmente. Todas, sem exceção, diferem de mim em alguma ou em muitas coisas. Eu sou atéia convicta desde quem me entendo por gente, mas adoro ler o blog da
Elianne, que é mórmon. Minhas irmãs foram mórmons. Não me interessa que ela seja mórmon e eu atéia, ela parece feliz e realizada na vida que tem e é por isso que acompanho o blog dela, que tem sempre uma palavra amiga e de conforto para seus leitores. Não gosto de cachorros, mas leio com imenso prazer o blog da minha conterrânea
Patrícia, que é dona do Duke, um cachorro super fofo. Que importa que ela goste de cachorros e eu não? A
Fernanda está estudando pra ser enfermeira, uma carreira que não tem nada a ver comigo, mas leio o blog dela porque dá prazer ver o quanto ela coloca paixão no que faz e o quanto ela tem de generosidade para com as outras pessoas.
A
Bia tem muitas coisas em comum comigo: é prolixa, escreve visceralmente, ama ler e aos vinte e poucos anos está em busca do caminho dela como eu ainda estou do meu aos trinta e meio. Acompanho o blog dela pelas coisas que compartilhamos, como a paixão pelos livros, não importa que nosso gosto para livros seja diferente. A
Adriana é julgada o tempo todo pelas mesmas razões que estou sendo julgada agora, mas está lá firme e forte no seu interessantíssimo blog dando dicas e respondendo às solitações dos seus leitores sobre informações turísticas de Londres. Ainda não alcancei o mesmo nível de "deixa pra lá" dela. A
Tati é a menina mais bem-humorada e despachada da blogosfera. Tem gostos completamente diferentes do meu, mas como não dar risada lendo os posts dela? Ela toca numa orquestra, eu sou apaixonada por música erudita. É uma das pessoas que me lêem que eu mais gostaria de conhecer pessoalmente. Ops, será que ela ia ficar com vergonha de me receber na casa dela por causa dos móveis da Ikea? Ou se recusaria a vir na minha casa pela razão oposta?
Eu poderia mencionar todos os outros blogs que acompanho e leio diariamente, mas este post já está grande e cheio de explicações demais, para que prolongar mais ainda? O que pretendi com esses exemplos foi mostrar que todo mundo é diferente e mesmo assim o que nos aproxima é o que nos torna iguais, o que compartilhamos. Cada um de vocês, assim como eu, deve ter sua história pessoal de dor e alegria, suas limitações sejam financeiras, de tempo, emocionais, físicas ou psicológicas. Erram e acertam. São mais ou menos abertos sobre suas vidas pessoais em seus blogs. Nada disso importa. São autênticos. Isso não basta?
Se meu post da Ikea ofendeu vocês meninas que têm peças da loja em suas casas, desculpa, jamais tive a intenção de ofender ninguém.
Fernanda, do blog Tintim-por-Tintim, todos os comentários que deixei no seu perfil no Orkut foram realmente sinceros. Se algum dia vocês tiveram a impressão de que sou esnobe ou metida, estão completamente enganadas a meu respeito. Quem me conhece e convive comigo sabe quem eu sou, sabe do meu caráter. Minha cunhada é louca por bolsas caras, minha irmã por sapatos. Eu gosto de joias. Não tenho outra extravagância financeira. O que há de errado nisso se eu posso pagar, se meu marido pode me dar?
Aos que me julgam por causa de um punhado de post, o que tenho a dizer é que julgadores não têm opinião. Julgadores têm certezas. Como a Fernanda Young, eu também odeio pessoas que se refestelam em suas certezas! E como mudar as certezas dos outros? Não tenho energia, vontade nem saúde mental para isso. E seria infrutífero in anyway.
Nunca tentei, nem por um milonésimo de segundo, bancar a superior sobre nenhuma de vocês. Nunca me senti superior a ninguém. Acordo todos os dias e luto minhas batalhas da mesma forma que vocês lutam as suas. Assim como nunca me senti inferior a nenhuma de vocês que tem um background mais favorecido do que o meu porque isso não importa, ou pelo menos não deveria. Eu me afastei da única pessoa com quem tentei fazer amizade aqui em Ann Arbor justamente porque ela parecia deslumbrada demais. Quando ela descobriu como eu era simples, como eu me visto no dia-a-dia e que não ando na rua coberta de joias nem roupas e acessórios de marca como se fosse a madrasta da Cinderela, acho que ela se decepcionou com a minha sem gracisse, com a minha falta de glamour e começou a pisar na bola comigo. Me afastei. Foi melhor assim. Estávamos em busca de coisas diferentes.
Resumindo, estou desgastada demais com o blog. Julgamentos castigam muito. Talvez em outro momento da minha vida eu ligaria um FODA-SE bem grande e seguiria escrevendo como sempre escrevi: de forma aberta, verdadeira, apaixonada, sem medo de dizer o que penso, do que gosto e não gosto. Mas neste momento, quando tenho travado outras batalhas (todas internas), quando tenho me sentindo cheia de inseguranças e com medo de tudo e de todos, coisas desse tipo me ferem horrivelmente. Não posso continuar com o blog agora. Devo voltar depois, quando estiver mais fortalecida. Não tenho disposição para escrever o que os outros querem, do contrário deixaria de ser eu mesma.
Pra quem pensa que a minha vida são somente flores, a lembrança do inferno que tenho enfrentado é bem-vinda. Talvez meu inferno não seja financeiro, como é para alguns, mas ficar doente pode ser considerado um inferno mais suportável? Nossa vida está paralisada porque eu quase não saio de casa, estou completamente fóbica. Só saio lá fora após me certificar de que não há vizinhos around. Não aguento ver muita gente na rua, me sinto mal, quero voltar pra casa, o único lugar onde me sinto realmente segura. Não tenho vontade de fazer absolutamente nada.
Por que acham que
contratei faxineira? Porque sou metida e preguiçosa? Não, é porque tem dias que tenho de me arrastar pra sair da cama. Quem já sentiu isso sabe o que significa o simples esforço de pentear o cabelo. Sim, que bom que eu posso bancar uma coisa dessas, porque poderia ser pior. Já foi muito pior. Por que entramos pro
country club? Por que somos jogadores de golfe esnobes sem mais nada de útil pra fazer na vida? Não somos o tipo de casal que frequenta clubes, o hobby do meu marido é colecionar selos raros, o meu é ler. Essa foi apenas mais uma tentativa desesperada dele, coitado, de me tirar de casa, da minha clausura. Eu teria parecido mais humana se tivesse contado as verdadeiras razões por trás de tudo isso? Mas agora fico pensando que
meu post contando da faxineira deve, na verdade, ter dado a alguns a certeza de que gosto mesmo é de bancar a rica.
Talvez por estar tão deprimida é que me doeu o que essa amiga disse. Cometi muitos erros na minha vida, magoei assim como fui magoada, tive meus tropeços e demorei a entender e aceitar o que tenho, mas estou reconstruindo minha vida e acredito que com sucesso. No grupo de apoio do qual participei em SP vi amigos perdendo a vida para o suicídio antes que conseguissem a ajuda de que necessitavam. Eu ainda estou aqui, vivendo um dia após o outro, sobrevivendo a mim mesma. Não tem sido fácil. Mas tenho todo o suporte de que necessito para chegar lá. Não sou nem me sinto uma pobre coitada ou uma pessoa mentalmente mutilada só por ser bipolar. Frequentes são as vezes em que faço piada do meu problema. Dar risada é um jeito suave de lidar com algo que gera tanto estigma e preconceito.
Nunca banquei a mulher-perfeita-da-vidinha-perfeita. Não sou Alice nem nunca pretendi ser. E jamais vou admitir alguém vir me dizer na cara dura que sou esbone, que humilho e me desfaço dos outros, que me acho melhor do que este ou aquele. Jamais fui egoísta, da mesma forma que jamais fui arrogante. Essas são caraterísticas que me enojam e só de pensar que alguém concluiu que sou assim, baseada em julgamentos precipitados, me faz ter vontade de chorar. Minha história de vida não me permite ser esse tipo de pessoa. Não foi a educação que recebi dos meus pais, não é o que quero ensinar para os meus filhos. Meu jeito fechado pode fazer com que algumas pessoas pensem que sou antipática ou simplesmente chata. Por que não perguntam diretamente antes de julgar? Minhas razões são essas aí que expus tão abertamente neste post já quilométrico.
Estou engasgada com muita coisa já há muito tempo. Amanhã talvez eu volte aqui e me arrependa de ter me aberto tanto, de ter contado coisas tão íntimas, como as tentativas de suicídio, os conflitos pré-casamento e o background do meu marido. Mas se os outros acham que podem me julgar sem me conhecer, eu ao menos me reservo o direito de apresentar a contra-prova. Meu blog é minha válvula de escape. Mas só isso. Fecho o computador e a vida real continua aqui me esperando e ela não é tão glamourosa como alguns pensam.
A tensão, o medo de ir num psiquiatra aqui e não saber se a doença mental é tratada com humanidade neste país me travam. Medo de ficar estigmatizada. Medo de ter filhos e eles herdarem o que eu tenho. Medo de ter depressão pós-parto. Medo de tirarem meus filhos de mim. Medo de nunca conseguir encontrar um emprego decente aqui. Medo de não fazer novos amigos porque não consigo mais deixar ninguém se aproximar. Ando com fobia de gente. Medo de meu marido um dia acordar e descobrir o grande erro que ele cometou casando com uma louca como eu, porque, garanto, esta não tem sido uma jornada nada divertida para ele.
Tenho medo de muita coisa já. Alguns superei, de outros ainda estou tentando me livrar. Não posso agora começar também a ter medo de escrever aqui, no meu blog pessoal. Seria até ridículo. Comecei este blog ainda no Brasil, nos tempos da terapia. Foi algo catártico pra mim. Foi também escolha pessoal minha não contar coisas íntimas demais, porque eu vinha de um passado de 10 anos sendo obrigada a dividir minha intimidade, meus mais íntimos pensamentos e sentimentos com família, médicos e amigos. Não queria que o propósito do meu blog fosse esse. E não foi. E não é. E quando eu retornar continuará não sendo.
Carrego muita culpa desde que sou criança. Culpa por absolutamente tudo. Culpa por ser diferente, por ter gostos diferentes da maioria. Recentemente fui chamada de chata porque falei que não como arroz. Mas essa mesma pessoa não come um monte de outras coisas. A diferença? Não comer vagem está tudo bem, mas quem não come arroz é simplesmente chato. Há muito tempo percebi que as pessoas te consideram chata se você não come o que elas comem, não se veste como elas se vestem, não gosta do que elas gostam, não se diverte como elas se divertem, não gasta seu dinheiro do jeito ou nas coisas que elas gostariam que vocês gastasse.
Nunca julguei ninguém por ser diferente de mim, por gostar de coisas diferentes de mim. Posso ser estranha, posso ser meio desequilibrada até, mas não aceito ser julgada só porque não gosto de determinada loja. Pode parecer pelos meus posts que minha vida é perfeitinha. Mas o que vocês fariam se fosse eu? Iam entrar aqui e escancarar pra todo mundo cada vez que acorda no meio da noite com o coração disparado pensando em morrer? Cansei de ouvir das pessoas que isso é frescura. "Mas você tem tudo!", é o que me falam sempre. O que significa "tudo"? Ter dinheiro? Claro, ajuda muito, é uma preocupação a menos na vida. Não vou ser hipócrita dizendo que ter grana é ruim. Mas não basta. Muito fácil julgar quando quem vive o problema não é você!
Meu jeito de escrever é forte, é pessoal, é agressivo às vezes. Sou agressiva até pra falar do que adoro. É meu jeito. Fui tão visceral no post sobre a Ikea quanto fui em muitos outros que não têm relação nenhuma com coisas caras x coisas baratas, por exemplo, o
post em que menciono os ecoxiitas. E vejam que diferença, apareceu lá a Mariana comentando meu post e fazendo um contraponto inteligente ao compartilhar conosco o que ela faz para preservar o meio ambiente. Se ela se sentiu ofendida com minha opinião visceral não demonstrou, nem perdeu a elegância ao discordar de mim. Discordar sempre foi permitido neste blog. É enriquecedor. Nunca nem sequer moderei os comentários. Infelizmente me sinto compelida a fazer isso a partir de agora.
Minha amiga escreveu: "pela primeira vez eu entrei pra fazer o coro do povo que se assusta com o que vc fala, com o que vc pensa.. pq de repente, superficialmente, aparentemente, acabou me atingindo." Vocês se assustam com o que eu falo? Então isso aqui não tem mais nenhum sentido porque não sou o bicho-papão pra ficar assustando criancinha. E que povo é esse a que ela se refere que nunca se manifestou para mim? Eu realmente não sabia que meu blog causava esse efeito tão negativo em tanta gente. E a pessoa que escreveu isso parece ter muita certeza do que todos os meus outros leitores pensam. Vai ver ela fez uma enquete por aí e não me contou. Vai ver sou só eu que não estou sabendo desse tal "coro". O mais surpreendente é que isso veio de uma pessoa que conhece muito sobre a minha vida para além do blog, alguém com quem compartilhei muitas coisas, muitos problemas, muita intimidade. Isso que machuca.
Desculpem se fui meio ríspida com algumas pessoas nas respostas a alguns comentários no post sobre a Ikea. Mas sarcasmo é uma coisa que eu não aguento. Respeito mais quem me procura e diz do que não gostou. Os tolerantes dão aos outros o direito de se explicar e, se necessário, se desculpar. Vocês (refiro-me aos julgadores) me negaram isso. Nunca faltei com a verdade aqui, jamais faltaria. E para continuar com o blog agora eu teria de começar a mentir e fingir ser uma pessoa que não sou. Não sei ser assim. Não quero ser assim. Autenticidade sempre foi uma das minhas características mais marcantes. Quando você perde tudo, às vezes essa é a única coisa que te resta na vida. Não vou mudar isso agora, aos 34 anos de idade. Já tenho outros leões para matar. E eles são bem ferozes.
Agora que contei todos os meus podres, que me expus a um ponto que considero surpreendente para alguém super reservada como eu, que já me desculpei a quem de direito e expliquei o que senti necessidade de explicar, não sobrou mais nada pra postar aqui. Pelo menos não por agora. Os que gostam de mim ainda vão estar por aqui quando eu me sentir em condições de voltar. Os que me detestam agora terão ainda mais munição para a metralhadora giratória deles.
Sigo acompanhando meus blogs favoritos, como sempre.